29 de ago. de 2011

maravilhoso...achei nas minhas viagens pela net....


"Se eu ganhasse um real por cada idiota que já me disse isso eu estaria rica", foi o pensamento que primeiro lhe ocorrera naquela manhã. Forço-se a continuar ouvindo:
-Olha só: você e eu combinamos. Eu sou médico, você é enfermeira. Seria perfeito.
-Ahan, sei.-e continuou preenchendo o formulário na papeleta.
-E aí, topa?
-Não.
-Hein? Mas eu pensei que...
-Não. Não vou tomar chopp com você. Nem café. Nem água. Nem ar com você eu tomo.
-Mas, gata, por que tanto não?!
Pensou em ser gentil e dar uma desculpa. Mas sempre que ela dava uma desculpa a coisa ficava pior.
-Não gosto de você. E seu perfume me dá enjoo. E antes que diga que troca o perfume eu quero dizer que a verdade é que eu realmente não gosto de você.
Ele, como sempre acontecia em casos assim, ficou olhando estatelado para ela. Sem acreditar muito no que ouvira. Era como ser picado por uma borboleta...
-Vadia.
E saiu pisando duro, ofendido até a raiz dos poucos cabelos. Ela nem respondeu. Estava habituada. 
Acabou de preencher os papéis e olhou o relógio fixado na parede: oito horas. Finalmente. Ajeitou o cabelo, arrumou o uniforme imaculadamente branco e respirou bem fundo. Saiu da pequena saleta e caminhou pelo corredor imenso, o coração acelerando como acontecia todos os dias. O quarto já era visível, fim do corredor, número 140. Parada na porta ela respirou profundamente outra vez. Entrou sem bater.
-Bom dia, Paulo. Como passou a noite?
Ele sorriu. Sempre sorria. De um modo que fazia seus joelhos tremerem e seu coração disparar.
-Bom dia, Melody.
-É Amanda, Paulo-ela sorria de volta.
-Para meus dias cinzentos e sem som é Melody, minha melodia mais linda é a sua voz. Sabe disso, não é? 
-Dormiu bem?
-Dormi bem, pouco mas bem.
Fitou nela os olhos azuis, tão fundos e tão tristes...
-Vamos medir seus...
-Espere!
Tocou sua mão, e ela gelou. Sabia o que viria.
-Paulo, não posso...
-É hoje?´Não é?
-É hoje o que?
Ele ficou sério:
-Não faça isso. Não faça isso comigo.
Ela segurou as lágrimas. Respirou fundo: vinha fazendo muito isso ultimamente.
-Sim.
-Sim? Sim? Sim o que? Sim para é hoje ou sim para...
-Sim para tudo. Sim. Sim. Sim.
Ele se levantou, tarefa nada simples, aliás. Abraçaram-se com uma intensidade tal que o fez gemer. Seus olhos azuis estavam inundados.
-Quando?
-Antes. 
Ele entendeu. Não haveria tanto tempo assim. Forçou um sorriso:
-Sabe que eu estou meio cansado de só vê-la de branco?
Duas semanas depois casaram. Foi um espanto. Todos no hospital ficaram estarrecidos. Todos sabiam que o noivo estava com pouco tempo, e todos sabiam que a linda e jovem enfermeira recusava todos os convites e cantadas que recebia. O espanto cresceu quando a noiva adentrou o pequeno salão radiante no mais vermelho dos vestidos, uma aparição ao som de The Platters! Os fundos olhos azuis a seguiam, fixavam-se em seu rosto, como se tentassem gravar cada detalhe, cada nuance...Dançaram apenas uma vez. E os olhos não se cansavam um do olhar do outro...
Dois meses depois ele morreu. Ela foi a única pessoa de branco no enterro do marido. Uma viúva de branco, diziam... Uma viúva à espera de um bebê, que se Deus quisesse, teria fundos olhos azuis.

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